‘A China amorteceu o impacto da guerra no preço do petróleo’, diz especialista

Por Vinicius Neder — Rio de Janeiro

Brasil ganha com a diversificação chinesa de fornecedores da matéria-prima, mas disputa geopolítica com os EUA pode respingar no país, avalia Michal Meidan, pesquisadora do Instituto de Estudos em Energia de Oxford, do Reino Unido

Em seis meses de guerra no Irã, as cotações do petróleo dispararam, o setor foi lançada na incerteza, mas a economia global não afundou. Em boa parte, por causa da China, diz Michal Meidan, chefe de pesquisa sobre o país asiático no Instituto de Estudos em Energia de Oxford, centro de pesquisas baseado no Reino Unido.

A resiliência da China passa por planejamento, diversificação de fontes e fornecedores e pela transição energética, estratégias que devem se espalhar no mundo, cenário no qual o Brasil pode sair ganhando, avalia a especialista, que estará no Rio amanhã, para uma palestra na ROG.e, maior evento da indústria petrolífera do país.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao GLOBO.

Como analisa os efeitos da guerra no Irã sobre o setor de energia seis meses depois?

Tem sido surpreendente o impacto da crise em vários níveis, porque quando começou, há mais de seis meses, acho que muitas pessoas no setor de energia olharam para a situação e disseram: “Isso é um problema realmente grande, não é? Não é apenas petróleo e gás. São derivados, matérias-primas petroquímicas, insumos para fertilizantes”.

Era um problema enorme para a economia e, ainda assim, a economia global parece estar bem. As expectativas inflacionárias subiram um pouco no médio prazo, mas não muito no longo prazo. Há um debate aberto sobre o que está acontecendo.

Parte disso, acredito, deve-se ao fato de que os mecanismos de amortecimento funcionaram: utilização de reservas, estoques de derivados, fornecedores alternativos, combustíveis alternativos. Muito disso ajudou a amortecer o golpe.

Qual o papel da China nisso?

A China teve um papel importante, pelo menos para amortecer o impacto nos preços, pois conseguiu reduzir suas importações (de petróleo e gás) de forma significativa. Pode-se argumentar que, se a China estivesse comprando normalmente, os preços estariam muito mais altos.

O resto dos países da Ásia também?

A Ásia é muito heterogênea. A China está bem, a economia não foi severamente impactada, mas o Sudeste Asiático não está bem. Há muitos países, como Filipinas e Vietnã, que estão enfrentando apagões, racionamento. Mas o Japão tem mais de 200 dias de estoques, a Coreia do Sul tem estoques de petróleo bruto.

Alguns países estavam preparados, outros, não?

Com certeza. Alguns países estavam mais bem preparados do que outros. Tenho a impressão de que todos ficaram surpresos com o quão bem os chineses administraram a crise até agora. Até mesmo na China estão um pouco surpresos. Mas não deveríamos nos surpreender, porque há 30 anos eles vêm acumulando reservas estratégicas. Eles vêm diversificando as fontes de importação. E têm um programa muito agressivo de veículos elétricos e eletrificação do transporte.

Qual o papel da eletrificação nessa resiliência?

Claramente, a eletrificação tem sido parte da solução. O carvão é a outra parte. Portanto, a eletrificação não é necessariamente uma transição verde. No setor químico, a conversão de carvão em produtos químicos tem sido realmente muito significativa na substituição do petróleo.

Mas a demanda por diesel e gasolina caiu de forma bastante acentuada. No segundo trimestre, para o qual temos dados, a queda na demanda por diesel e gasolina foi provavelmente entre 10% e 15% em relação ao ano anterior, o que é expressivo.

Agora, quanto disso é estrutural e quanto é cíclico? É difícil dizer.

No caso da gasolina, parte disso é comportamental. Donos de veículos com motor a combustão simplesmente não estão dirigindo porque está muito caro. E, nas grandes cidades da China, você não precisa dirigir. Há redes de metrô, transporte por aplicativo, como Uber e DiDi.

Vemos muitas estatísticas mostrando que os veículos elétricos ou de novas energias representam 60% das vendas na China a cada mês, mas eles compõem menos de 20% da frota total de veículos em circulação. Não se substitui toda a frota do dia para a noite.

Na verdade, as vendas de veículos elétricos estão perdendo ritmo devido à retirada de subsídios na China. Então, temos a eletrificação em andamento, mas, neste momento, as pessoas não estão dirigindo seus carros a gasolina porque está caro demais.

No diesel é interessante porque estamos em um ponto em que há uma maior eletrificação do transporte de carga. As tecnologias de bateria estão bastante avançadas agora, a ponto de já existirem caminhões de longa distância que podem ser eletrificados. Há também mais caminhões movidos a GNL (gás natural), porque o GNL na China custa menos do que o diesel. Mas, no caso do diesel, há também o elemento da desaceleração econômica na China.

Deixe-me colocar da seguinte forma: não é tudo transição energética, não é tudo eletrificação, e a crise não mudou nada fundamentalmente. Apenas reforçou o que os formuladores de políticas na China já estavam fazendo. E eles estavam fazendo muitas coisas certas.

Resumindo, o que a China estava fazendo de certo?

Eles tinham reservas, flexibilidade de opções, estão promovendo a eletrificação, estão reduzindo a dependência do petróleo, e tudo isso parece estar dando resultados.

Qual o impacto da guerra na transição energética?

Acho que é um panorama muito fragmentado. É quase impossível apontar uma direção única e clara. Muitos governos estão buscando eletrificar e acelerar a transição energética.

Na Europa, temos um problema realmente grande: os custos de tudo estão subindo, temos uma grande parcela da indústria construída com base em petróleo e gás como matéria-prima e, com a eletrificação, precisamos expandir as redes elétricas e desenvolver confiabilidade.

Quando se trata da China, agora existem os riscos de dependência, e as pessoas na Europa estão dizendo: “Ficaremos dependentes da China para tecnologias limpas, e isso é algo bom?”. Portanto, acho que existem tantos fatores impulsionadores quanto limitações para a transição energética…

Você mencionou a diversificação de fornecedores, e o Brasil e a América do Sul têm se destacado na produção de petróleo. São alternativas importantes para a China?

Para ser justo, é predominantemente o Brasil. A Argentina é uma fornecedora pequena. A Venezuela já foi bastante expressiva, mas não nos níveis do Brasil. Portanto, o Brasil é o grande fornecedor, e acredito que a oferta brasileira aumentou muito durante a crise. Mas o Brasil não pode substituir os 4 milhões de barris por dia de produção perdida do Oriente Médio.

Então, embora haja crescimento no Brasil e haja definitivamente apetite por mais importações do Brasil, não há substituto para o Oriente Médio.

E, novamente, a China está relativamente bem posicionada. Se você olhar para o Japão, mais de 90% do petróleo do país vem do Oriente Médio. Para a China, são apenas 50%. Ao perder parte desses 50%, não existe um único produtor ou mesmo uma combinação de países que consiga aumentar a produção tão rapidamente para suprir esse volume.

Portanto, acho que para os chineses a única solução é reduzir a dependência das importações, mas com a consciência de que o Oriente Médio continuará sendo relevante, enquanto a diversificação e países como o Brasil são fornecedores muito, muito importantes.

Então faz sentido o Brasil seguir investindo na ampliação da produção?

Com certeza, mas esses são debates nacionais mais amplos sobre qual deveria ser a prioridade. Sabe, há um debate mais amplo sobre a crise da guerra e até que ponto ela acelera a transição energética, com todas essas estatísticas e dados sobre o aumento nas vendas de veículos elétricos e painéis solares.

Acredito que isso seja verdade, mas também há muitos países onde não é possível substituir a infraestrutura existente rapidamente e, portanto, o petróleo e o gás continuam fazendo parte da matriz energética em muitos países.

Não podemos substituir o sistema energético da noite para o dia. Em algumas áreas pode ser mais fácil, mas em alguns países, não. Portanto, para o Brasil, acredito que há uma justificativa para continuar investindo.

A volta da Venezuela ao mercado, com o acordo com os EUA, poderá fazer diferença?

Em primeiro lugar, que acordo é esse? As grandes petroleiras não querem voltar para a Venezuela. Elas afirmaram que a Venezuela é inviável para investimentos. Sabe, acho muito difícil colocar muito dinheiro em um país governado por duas pessoas, onde não se sabe qual será o futuro político delas.

E acho que há simplesmente a realidade de que, mesmo que esse novo investidor apoiado pelos EUA entre em cena, há infraestrutura a ser construída, para revitalizar. Não vi muitas estimativas confiáveis sugerindo que um grande volume de petróleo venezuelano retornará tão cedo.

Mas, se retornasse, acho que seria algo positivo, porque a crise da guerra não dá sinais de acabar. É muito difícil vislumbrar como voltaremos a uma normalidade. E quem sabe o que é a normalidade hoje em dia.

O movimento dos EUA na Venezuela não deixa de ser uma reação ao crescimento da influência da China na América do Sul. Como fica a posição do Brasil na disputa geopolítica entre chineses e americanos? A disputa pode espirrar aqui?

Com certeza pode. O meu entendimento é que será difícil para os EUA colocarem muita pressão sobre o governo brasileiro e dizerem: “não aceitem nenhum investimento chinês”. Mas, em uma série de países, é exatamente com isso que os chineses estão preocupados.

A Venezuela foi simbolicamente significativa, mas os chineses praticamente não operam na Venezuela há muito tempo. No entanto, na América Latina e na América do Sul, há uma presença maciça no Chile, na Argentina, no Brasil, na Colômbia e no Equador.

E, se o governo dos EUA agora pressionar governos a limitarem os investimentos chineses ou as vendas para a China, isso é um problema. É um problema para a China e é um problema também para os governos anfitriões, porque é muito difícil escolher um lado.

Os chineses, retórica e diplomaticamente, estão fazendo um ótimo trabalho ao tentar mostrar que os EUA não são confiáveis, mas acho que muitos países apreciam a flexibilidade de opções de poder dizer: “Tudo bem, queremos os EUA para certas coisas e queremos a China para outras”.

O Brasil tem condições de fazer isso?

Com certeza. Acredito que o país pode tentar jogar em ambas as frentes.

Publicado originalmente em O Globo

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